Entrevista
Na luta
O começo
Do outro lado da mesa
Colaborações
Fazendo o futuro
Temas delicados
Personagens
Considerações finais

Influências

kazi: Suas influências, Laerte? Henfil?
laerte: Henfil é um cara sensacional. A transação gráfica que ele deixa pra gente é uma conquista que não tem tamanho. Acho que esse negócio do desenho rápido, caligráfico, talvez tenha sido a primeira em que se fez, um negócio sem rascunho, mesmo. Ele era bem datado, mesmo, ele fazia questão de ser datado, de ser um cara que trabalhava ali, praquele momento, praquela hora. Um sujeito muito criativo, que era capaz de ser ele mesmo em várias linguagens, em televisão, em cinema, em teatro (teatro nem tanto, aquela peça dele eu achei meio fajuta), mas ele precisaria fazer mais uns três ou quatro filmes pra poder pegar… No Tanga, que eu acho um filme fraco,você percebe que ele tava indo por uma linha.
 Agora, pessoalmente ele era um cara muito turrão, um esquerdóide…
kazi: Você trabalhou muito tempo com ele.
laerte: Trabalhamos. Apesar de ser um cara turrão, ele tinha razão numa porrada de coisas. A época que a gente rompeu, por exemplo, foi uma época em que foi criado o PT (eu continuava partidão como sempre), e eu me lembro de uma conversa telefônica que a gente teve em que ele dizia que era um absurdo o que estava acontecendo, porque as pessoas (ele falava as pessoas, mas ele tava se referindo ao partidão) estavam pedindo uma Constituinte com o João Figueiredo, que era uma anistia de joelhos, essa linha de críticas. E eu dizia que não, que era o avanço possível e tal. Foi mais ou menos isso que dividiu a gente, ele foi pro PT, mais à esquerda, e eu fiquei no partidão, que era aquela cozinhação toda. Acho que eu teria feito bem se eu tivesse acompanhado o Henfil nessa, mas, por outro lado, eu também precisava me livrar dessa "tutela" do Henfil.
 Não era muito fácil você romper com o Henfil, geralmente o Henfil é que fazia você romper com ele. Ele era um cara estranho e ambivalente, ele te atraía e depois te expulsava.
kazi: E fanzines, Laerte? Você chegou a dar um espaço razoável para fanzines, fez uma HQ incitando/ensinando a moçada a fazer zine.
laerte: Pois é, meu problema é ler tudo. Eu fiquei com vontade de fazer um troço que o Zimbres faz, que é ter um registro (talvez você tenha também, pra fazer a divulgação que você faz).
kazi: Tenho.
laerte: Então, agora eu nunca consegui virar um profundo conhecedor de nada, assim, porra nenhuma na vida. Eu tenho porrilhões de zines que as pessoas me mandavam na época da Piratas, e eu adoro isso, as pessoas se darem essa liberdade de produzir coisas, e algumas delas muito boas. Uma porção de bobagens, também, mas mesmo as bobagens são legais de serem feitas, antes serem feitas do que não serem feitas.

Bunda na cadeira

kazi: Como é o seu método de criação.
laerte: Ahn…
kazi: Inexiste?
laerte: Não, certamente existe, mas eu não sei te dizer "é assim." Geralmente eu parto de alguma coisa que está me excitando a cabeça, ou é uma cena, ou é uma circunstânica, isso quando eu não tenho que fazer uma coisa obrigatória. Tem que sair uma tira e eu estou em branco, aí sai qualquer troço.
kazi: Quanto você está à frente das tiras? Uma semana? Mais?
laerte: Zero.
kazi: Zero?! Você faz uma por dia?
laerte: Não [risos], eu tenho umas duas ou três. Agora, eu gosto muito de ler histórias, e às vezes eu faço histórias a partir de outras obras. Eu to lendo um troço agora que tá me deixando excitadíssimo, que é a biografia de Beethoven. Eu adoro Beethoven, sempre curti muito.
kazi: Tem referências nos teus quadrinhos.
laerte: É. Agora, uma biografia de Beethoven é uma biografia de Beethoven, só é legal pra quem curte Beethoven. Agora o que é que pode rolar dali, eu não sei.
kazi: É no momento em que você está lendo que você vai criando?
laerte: Já vai pintando coisas, certamente.
kazi: E de quadrinhos, filmes? Você tem algum diretor preferido?
laerte: Altman. O pobre Fellini. Então, os Palhaço Mudos foi em cima de Fellini, ele tem um filme sobre palhaços que é muito legal. Na verdade, os palhaços mudos era em cima de uma idéia de palhaços de uma ópera, e eu fiquei pensando assim num bando de palhaços dramáticos que viviam na cidade, meio como vagabundos. Aí eu vi o filme do Fellini e achei que, puta, era outro caminho.
kazi: Então tua obra não escapa de referências.
laerte: Não. Inclusive outros quadrinhos, eu fico com vontade de desenhar cenas parecidas. É mais ou menos como eu fazia quando eu tinha quatorze anos, eu ia ver um filme, Lawrence da Arábia, Scarramuche, voltava pra casa e ficava ali desenhando. Tentando fazer de novo aquilo, às vezes era fazer algo parecido. Eu tinha um personagem que era uma espécie de Tarzan, um homem-macaco, só que incrivelmente mais forte que o Tarzan. E eu sonhava com ele, sonho mesmo.
kazi: Já sonhou com os Piratas?

Ilustração para a revista Piratas do Tietê

laerte: Já, foi um sonho engraçado.
kazi: Imagino.
laerte:Eles estavam todos com AIDS. [risos] E eu era obrigado a ficar lá com eles, mas eles tavam ótimos, bebendo pra caralho. Eu não lembro bem, mas tinha alguém atacando os piratas e eles não tavam muito preocupados, não era uma grande ameaça pra eles. Era, de fato, uma grande ameaça, mas eles não tavam muito aí com isso.
kazi: Não deu quadrinho?
laerte: Não, mas dá vontade. Depois tem algumas situações que eu fico pensando assim: "E se?…" Por exemplo, hoje eu andei pensando num sujeito que simula que é soropositivo pra escapar de alguma coisa. E ele descobre que se ele sair por aí falando que ele é soropositivo ele vai se livrar de um monte de aporrinhações. E isso veio do Beethoven, porque de certa forma Beethoven usou a surdez dele pra se isolar e fazer o trabalho do jeito que ele queria fazer. Ele não era tão surdo quanto a mitologia diz, ele só ficou completamente surdo no final da vida dele, quando ele já compunha sem precisar ouvir.
kazi: E quanto ao trabalho físico, gráfico? Basicamente você cria em P&B, os únicos trabalhos coloridos que saíram seus foram aquela história do tigre que saiu na revista-poster e os trabalhos da revista da Cultura Inglesa. Mas isso porque você não se dá bem com cor ou porque você gosta de trabalhar em preto e branco?
laerte: Eu não me dou muito bem com cores e acabo preferindo trabalhar com preto e branco. Tem também uma coisa de conveniência, claro, a maior parte dos veículos que estão aí para publicar são em preto e branco. O trabalho com cor me demanda mais esforço, geralmente eu estou com problema de tempo, então pumba, acaba indo pelo preto e branco, acaba sendo uma solução mais fácil. Mas nada é fácil, pra falar a verdade. Pra fazer essa história do Guimba eu me vi com várias possibilidades de tratamento gráfico, com vários tipos de desenho, são coisas que eu tenho que resolver. Pinta uma porrada de problemas que eu tenho que resolver na hora.
kazi: Então você não tem aquele método de escrever o texto e depois decupar pra ver como vai ficar na página.
laerte: Não, sim, envolve essa parte mas ao mesmo tempo envolve outras, fora que o meu desenho tá mudando. Esse desenho que eu tenho feito, na Folha e tudo, não tá no Guimba, então eu vou ter que redesenhar o Guimba, fora que essa é a segunda vez que eu começo a desenhar o Guimba. Então a idéia é fazer um desenho que seja bom e que me satisfaça e ao mesmo tempo seja como eu sou hoje. Esse é um problema engraçado que os brasileiros têm, os americanos, quando entram no mercado, eles já passaram por todas as fases que eles tinham que passar, já aprenderam.
kazi: Em termos, né, se você pegar o Calvin
laerte: Não é brutal. No Brasil o único cara que eu conheço que faz isso é o Fernando Gonsales. Do primeiro ao último tem uma puta duma uniformidade.
kazi: Tem uma diferença, mas não é tão grande.

Considerações finais

kazi: Tem alguma coisa que você considere importante da qual a gente ainda não tenha falado?
laerte: Tem, mas eu geralmente só lembro disso depois. Essa coisa do desenho. Porque no quadrinho, o desenho já é a idéia, quer dizer, no Brasil nós trabalhamos muito assim o autor faz o roteiro e o desenho também, então falamos de uma totalidade só. Uma idéia que tá só na cabeça, enquanto ela não começa a ser desenhada ela ainda não é a idéia.
kazi: Mas você já fez trabalhos com outras pessoas…
laerte: É, o Guimba é.
kazi: Você já fez roteiro pro Libero desenhar.
laerte: Já. E fiquei morrendo de raiva.
kazi: Por quê?
laerte: Porque não era eu. [risos]
kazi: Exato, mas é um problema seu, porque você, quando concebe a história, você já concebe desenhando, mentalmente…
laerte: Exatamente.
kazi: E aí, quando você dá a história pra outro desenhar não vai sair o que você quer.
laerte: É o problema de ter assistente, também.
kazi: Mas não é uma coisa de você criar um roteiro pensando no traço de outra pessoa?
laerte: Claro. O Altan, por exemplo. Puta, quando eu vejo uma história do Altan eu fico imediatamente com vontade de fazer uma história pro traço do Altan. Aí sai uma história com meu traço, às vezes sai legal.
 Tem uma história que eu fiz com o Angeli que ficou muito engraçada, que era a história do cara que queria entrar para a História. Aqui eu tava querendo desenhar como o Guto Lacaz.
kazi: O roteiro é colaboração?
laerte: É, a gente ficou bolando a história depois eu levei pra desenhar. Essa é uma história redondinha, eu gosto muito dela.
 Acho um problema desenhar mulher também.
kazi: Por quê?
laerte: Porque elas despertam na gente uma transação de tesão, elas são muito bonitas e, puta, o desenho que a gente tem é uma escrotidão, sabe, aqueles caras narigudos… [risos]
kazi: E aquelas tiras da…
laerte: Virgínia Helena. O cara fala isso pra ela: "Não, isso aqui é humor, humor é uns hominhos narigudos, não é mulher gostosa."
kazi: E você tem esse problema de desenhar mulher gostosa.
laerte: Tenho problema e tenho uma grande vontade de desenhar mulher gostosa.
kazi: Mas onde está o problema?
laerte: É porque nunca fica do jeito que a gente quer. Eu comecei a desenhar, a idéia de desenhar tava vinculada a desenhar gente pelada, especialmente mulher pelada. Eu era super jovem e ficava ali copiando mulher pelada. Mas fica sempre muito aquém e "Puta, ela tá torta", porque você se impõe outros critérios. Quando você tá desenhando um homem, com um puta dum narigão assim, mãozão, você não liga, agora mulher, especialmente se ela tem que ser gostosa na história, fica aquele negócio: "Puta, ela não tá gostosa!"
kazi: Quem você acha que desenha mulher gostosa?
laerte: Ah, o Manara desenha mulher gostosa, eu não gosto do desenho dele, mas… O Líbero, às vezes sai gostosa. Quem mais? Em quadrinho todo mundo desenha homenzinhos narigudos. [risos] Agora, tem as mulheres que fazem papel de gostosa, o Glauco tem aquele mesmo Geraldão, com peito e xoxotinha, e é uma mulher gostosa. [risos] Mas todo mundo entende que aquela é uma mulher gostosa.
kazi: Você tem filhos, eles lêem tuas histórias?
laerte: Lêem. Inclusive eles criticam, falam: "Pô, pai, isso aqui tá uma merda." [risos] As tiras ele raramente curte, aquele chato! [risos]