Entrevista
Linha editorial
Desilusão
Após a mudança
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 | Uma das capas da Animal com o robô Ranxerox |
kazi: Fala da Ainimal.
rogério: A história inteira, desde o início. É uma história longa
Tem duas fitas aí, né?
kazi: Tem.
rogério: Começa assim: tinha os trotskistas, Libelu. Aí, eu tinha esses amigos meus que faziam um fanzine na PUC.
kazi: Você se formou na PUC?
rogério: Não.
kazi: Você fez o quê?
rogério: Um monte de bobagem. Mas aí, eu queria fazer uma revista em quadrinhos. Eu tinha feito na ECA, com o Almeida.
kazi: Almeida?
rogério: A piada é equivalente a Smiths: uma banda chamada Smiths, um fanzine chamado Almeida. E aí eu tinha feito aquele negócio e queria fazer uma revista em quadrinhos de pirataria, era 85. Eu lia Alter, lia Zulu, e não chegava nada disso no Brasil então eu queria fazer uma revista e publicar esse negócio em tiragem pequena, pelo prazer de fazer o negócio, sem pretensão de dinheiro, sabendo que ia ser uma coisa limitada
kazi: Fanzine.
rogério: É. Pra meio explicar, mostrar. Aí eu conversei com o Celso Singo, e aí a gente foi conversar com o Renato, e aí todos nós éramos da Libelu, saídos da USI. O Jornal do Trabalho, aquela praia. A gente queria fazer esse negócio, a gente fez um monte de reuniões
Eu procurei umas pessoas que eu conhecia, de ver o negócio de gráfica, e dar uma sondada, de ver o que podia ser feito e de repente fazer uma coisa melhor. Uma amiga minha, também saída da Libelu, me falou: "Por que vocês não vão conversar com o Josimar?" Josimar Melo, crítico de gastronomia. O Josimar tinha sido candidato à presidência da UNE nas primeiras eleições diretas depois da ditadura militar, pela Libelu. Então mais um Libelu. A gente foi conversar porque o Josimar tinha ficado amigo dos caras do Milazzo, Berardi, e tinha tentado lançar o Ken Parker no Brasil. A gente foi na casa do Josimar e ele falou: "Faz uma revista, não tem uma revista desse tipo no Brasil. Faz revista duma vez." E aí ele sugeriu um belga que estava editando algumas coisas de quadrinhos, e deu o contato.
kazi: Que era o Vincent.
rogério: Que era o Vincent. A gente marcou uma reunião e chegou lá, e ele estava muito isolado, ele não tinha ligação com ninguém. Ele tinha feito umas edições legais, tinha uns contatos lá fora.
kazi: O que o Vincent editou?
rogério: Ele publicou Durango, Thorgal, e ele tava muito entusiasmado. Eu falei pra ele que aquilo não ia dar certo, esse negócio de álbum, Conan é mais legal, vende mais. Comercialmente não ia dar certo, mas as edições eram legais, porque o Vincent é um cara caprichoso.
Só que nesse meio tempo eu tinha assinado um contrato com a Warner pra gravar o disco da minha banda, quer dizer, a Crime tinha começado
kazi: Quando, isso?
rogério: 86, em novembro a gente assinou com a Warner. E aí a banda começou a fazer show e eu parei [com o projeto da revista]. Aí o Celso também parou, e o Renato mais ainda. Em 87, o negócio da banda já não tava rolando tanto, e eu tava fazendo umas coisas de projetos gráficos, quando o Gualberto me avisou que o Will Eisner vinha para o Brasil, e ele sabia que eu era muito fã do Will Eisner, aí ele me convidou prum almoço com o Will Eisner. Eu liguei pro Alex Antunes, que era outro ex-trotskista, ex-Libelu, que dirigia a Bizz e falei pra ele que o cara vinha aí, que eu tinha quase tudo dele (eu era bem fã, copiava ele nos meus desenhos). Aí o Alex falou: "Então marca uma entrevista com ele pra Bizz." Aí eu fui entrevistar o Will Eisner". Aí conversei com o Will Eisner, foi bem legal. A entrevista no final nem foi publicada, eu tava tão assim "Ahh!", que nem consegui fazer.
kazi: Maior baba-ovo.
rogério: É, foi maior babação de ovo. Deu branco. Eu almocei duas vezes com o Will Eisner, fiquei acompanhando ele, foi legal. Aí o Alex falou: "Legal, por que você não faz mais alguma coisa?" Aí eu fui falar com o Vincent. E o Vincent me falou que ele tinha pensado melhor e que estava com os direitos do Ranxerox ele tinha ido atrás do Ranxerox e, em vez de comprar da Itália, ele tinha comprado os direitos da França, da Albin-Michel. Aí a gente ficou conversando e ele tinha falado com uns caras na Bélgica e os caras tinham falado a mesma coisa que eu pra ele, que precisava de uma revista que fosse eixo, pra depois lançar álbuns, porque o mercado brasileiro é um mercado esquisito. E aí, papo vai, papo vem, ele falou: "Por que você não monta uma revista? Eu banco."
kazi: Isso em 87.
rogério: É. Eu tinha esquecido de falar, eu tinha a banda, e eu fazia o fanzine da banda, que era o Xerox, eu e o Celso. Vai ter conseqüência depois essa história.
Aí o Vincent falou isso daí, eu falei com o Celso, e tinha um fanzine que tinha aparecido que eu achei muito bom. Porque os fanzines brasileiros eram todos meio hippies, tudo meio Crumb, e não tinham muita graça, mas aí apareceu esse aí que tinha a ver mais ou menos com as histórias que eu tava lendo.
kazi: Que era a Brigitte.
rogério: Que era a Brigitte. Aí eu fui atrás do Zimbres e do Foot. Descobri que o Zimbres morava a três quarteirões de casa. Aí eu convidei eles pra participar dessa revista.
Eu tinha uma idéia de revista, quando eu conversei com o Vincent eu já tinha falado com ele, que recolocasse o Brasil na atualidade, porque todo mundo falava de Heavy Metal, e eu já queria pular esse estágio, ir direto pra Frigidaire, Zulu, Alter
kazi: Você já estava atrasado, porque você estava pegando material antigo.
rogério: Eu sabia do Ranxerox antes. Um amigo meu trouxe os oito primeiros volumes da Frigidaire, então eu já tinha lido Ranxerox nessas edições da época. Mas eu tava meio atualizado principalmente por causa da Zulu e da Alter. A Zulu deve ter sido a melhor revista de quadrinhos, durante algum período, do mundo, era uma revista muito boa. E aí eu já tava com a Zulu, eu queria era fazer Zulu. O "Mau" eu copiei da Zulu.
kazi: Eu achava que tinha sido da Fierro, papel jornal, duas cores
rogério: O "Óxido", da Fierro, é uma coisa mais de quadrinhos. O "Mau" da Zulu era uma coisa mais de notinhas, mais bagaceira, era esse que era pra ser o espírito, e eu nunca consegui realizar bem isso.
Aí já tinha essa idéia de revista, mais bagaceira, mais agressiva. A gente pensou em centenas de nomes, e Mau apareceu antes de Animal. Aí eu acordei numa manhã com Animal na cabeça
[risos]
Aí começou aquele negócio de fazer o projeto. O Celso participou muito nesse período, de fazer o boneco pra vender pro Vincent. E a partir daquele momento já teve uma divisão. Como eu tinha sido o contato com o Vincent, ficou mais ou menos uma revista de editor e "editores de arte". É uma revista esquisita.
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