Entrevista
Linha editorial
Desilusão
Após a mudança
|
Na luta
kazi: Não sei se isso acontecia com todo mundo, mas o que aconteceu com a Animal, é que quando ela acabou, eu já estava andando com as próprias pernas, então ia buscar a Fierro, a Zulu, Alter Linus, L'Echo des Savannes. Aí eu comecei a ver que a Animal era uma puta chupação de um monte de revistas
rogério: É. Na verdade a Animal não era tanto uma revista, era quase um programa de rádio, sabe, toca um monte de músicas. Ela era uma coisa didática. Eu tinha umas pretensões de uma revista mais política, porque, no Brasil, qualquer coisa tem sexo, é uma sída ultra-fácil colocar mulher pelada, tá na novela das oito! Então o que choca nos Estados Unidos ou na Europa, no Brasil não há o menor choque. No Brasil o choque acontece quando você mexe com religião e com política. Já pensou se você coloca um input de revista anarquista, numa revista de quadrinhos, é isso que vai dar o choque. Era até "comercialismo" meu, de chocar, de chacoalhar
Estética rock: como eu posso encher mais o saco dos meus vizinhos? Mulher pelada na janela não era, mas uma bandeira do PT talvez chocasse mais [risos]. E era uma coisa que eu nunca consegui, e era uma coisa que eu queria que a Animal tivesse.
Quando a gente começa a fazer a revista, uma coisa que todo mundo concordou é que a gente não ia publicar quadrinhos que não sejam bons, nacionais ou gringos. Nem que não tenham a ver com a linha da revista, porque não adianta ser bom e não ter a ver com a revista.
kazi: E qual era a linha da revista? Era o que você, o Celso, o Zimbres e o Foot pensavam?
rogério: Eu imagino assim, eu tenho uma tendência a falar muito e defender muito o meu ponto de vista e tendo a sufocar um pouquinhos algumas pessoas, principalmente pessoas pacatas como o Newton e o Fábio. Então, de início, era muito esse negócio do meu gosto. Eles começam a subir na hora que eu começo a desanimar. Porque eu sou tão cabeça dura
Tô melhorando
[risos]
Mas a gente começou a Animal com esse coisa de só publicar
Porque tinha muita revista no Brasil que era legal, mas era tudo portfólio, todos os amigos entravam. Indiferente se a coisa era boa ou não, entrava por os caras eram amigos, ninguém tinha coragem de falar não, o cara aparecia e: "Ó, eu fiz uma história em quadrinhos, deixa eu publicar essa história?" Então você recebia umas coisas que tinha histórias eróticas e histórias infantis no mesmo negócio, era um troço completamente descabeçado. O Balão tinha um estilão, era meio eclético mas tinha um jeitão dele. O Bicho tinha uma coisa legal. E a gente queria ter o estilão da gente mesmo que fosse pela escolha das histórias estrangeiras.
kazi: O mínimo de coerência edtorial.
rogério: Tinha. E a Animal teve, pelo menos durante muito tempo teve: todos os finais eram esquisitos
Aí, dos nacionais, no início a gente recebia materiais muito ruins e a gente recebia materiais bons mas que eram assim, como a única editora que tinha publicado material nacional recentemente era a Press, era material pra Press, sabe, histórias de terror, histórias eróticas, mas aquele desenho acadêmico
Nada contra, mas não tinha a ver. Eu me lembro de críticas, até na imprensa, do Franco (nosso brother Franco, e tudo, que eu sou super amigo dele), que a vida dele é ficar defendendo quadrinhos, e o cara falou que a revista era pouco eclética, mas era a idéia da revista, sabe, quem quiser que faça outra. Eu até achava péssimo que não existisse uma revista de quadrinhos mainstream no Brasil. Teve tantas tentativas, por que a gente não pode tentar ser os cabeça duras?
Sabe, então demorou muito pro pessoal perceber a linha e pra aparecer.
kazi: Qual foi o primeiro nacional que vocês publicaram?
rogério: Foi o Newton, logo no início, e todo mundo malhou, disseram que a história não era muito legal, não sei quê. Mas a história era legal, e o Newton tava partindo pra um outro lance, assim, que eu acho super legal. Aí depois apareceu o Tony e levou um amigo dele. Aí o amigo dele ficou entusiasmado, e a gente ficou conversando e eu fiquei ultra amigo desse amigo dele que é o Osvaldo Pavanelli. Aí o Pavanelli, passados uns dias, pegou e trouxe uma puta história linda, a melhor coisa, já tava pronta pra publicar. Passados dias vem o Pavanelli dizendo que tinha pensado bem e que aquela história tava ruim, que ele não queria que publicasse e depois ele traz outra história muito melhor [risos], cara, uma história com sete páginas, mas muito boa.
kazi: O Pavanelli é um dos talentos injustiçados, que não tem espaço.
rogério: É, porque a Animal criou outro vício no Brasil, que antes era aquele negócio de quadrinho caretão, acadêmico, fantasia
A Animal criou um outro lance que eu acho triste
Quer dizer, o Hendrix faz uma coisa que é muito legal, lá, de guitarra, e aí surge um monte de virtuoso na onda, que é chato pra cacete. Os Beatles fazem aquele negócio, aí depois vem um monte de cara fazendo aquelas mela-cueca. O Zeppelin é culpado de um monte de coisas de metal, de cabelões descerebrados que a gente vê por aí. Mas é por aí, qualquer coisa legal que você faz você acaba influenciando um monte de manés que começam a fazer um monte de bobagens, então ficou essa mania de cabeça. E o Osvaldo é meio vítima disso, porque falta espaço pro traço dele que é meio tradicional
kazi: O traço dele é muito pessoal.
rogério: É, e ele é tradicional como Bernet, como Muñoz y Sampaio. É revolucionário e ao mesmo tempo tá dentro de umas regras do quadrinho "certo", sabe, de história linear e tudo. E outra também que ele fica mais trabalhando de ilustrador que de quadrinhista porque ele ganha muito bem com isso.
kazi: É lógico. Se tivesse uma revista mensal no Brasil que publicasse quadrinhos e pagasse bem
rogério: A história dos quadrinhos no Brasil é a história de injustiçados, é cheio de injustiçados. Os únicos que se dão bem nessa história são os críticos de quadrinhos. [risos]
Então, aí ele apareceu com essa história muito boa e a gente já tava pra colocar na revista e tudo, e aí aparece o Cássio com uma história muito ruim, um desenho muito ruim [risos] (puxa, ele vai ouvir, tomara que ele não ouça isso [risos]). Não, era muito ruim, e o Osvaldo Pavanelli ficou lá, olhando a história e: "Ah, não, que legal. Puxa, muito bom." [risos] A gente ficou todo mundo lá, "tá bom", achando que era pra agradar o cara. Passa uns dias ele vem com uma história em parceria com o cara, ele tinha requadrinizado aquela mesma história, que era aquela história do palhaço da Necrópolis, muito legal. Quer dizer, surgiram na Animal o Toral, o Pavanelli, teve caras, que eu acho que a gente conseguiu dar um empurrão, tipo o Lourenço Mutarelli. Mas assim, mais do que os caras que publicaram lá, eu acho que a Animal teve um efeito legal de romper uma barreira, de abrir uma outra porta pra quadrinhos. Você sente como mudou. O material que a gente recebia era muito ruim, e chegou num ponto que tinha condição, quando eu saí da Animal, de publicar uma edição só de quadrinhos nacionais. Quando eu saí, a capa era pra ser do Toral. Quando saiu eu já não tava mais lá.
kazi: Era a dos "Pesadelos Paraguaios"? Eu acho que foi pro índice.
rogério: Mas tinha um efeito que eu acho positivo. É difícil medir isso porque o mundo não se resume à Animal, a gente bate num período em que começam a chegar muito mais quadrinhos importados
A Devir. A Devir tem um efeito no quadrinhos brasileiro, ainda não medido. O que ela educou de desnhistas
kazi: Mais ou menos.
rogério: Não, deixou muito moleque alienado.
kazi: Eles vendem um quaquilhão de X-Men pra cada Eightball. E nem ia ser diferente, a diferença é que hoje você acha uma Eightball, você pode comprar uma Rubber Blanket, uma Snake Eyes
rogério: Eu me lembro quando eu era moleque, que eu ficava rodando sebo, quando eu via uma revista do Vaugin Bodé, eu caía pra trás. Nossa, que coisa maravilhosa. Era a coisa mais rara. Isso daí a Devir conseguiu popularizar, e teve o efeito do mercado com as outras revistas, a Circo, a Monga, a gente tinha mil rivalidades.
kazi: A Monga é uma das revistas mais comentadas e menos lidas.
rogério: A Monga era a revista mais bem-intencionada dessas todas. A Monga tava realmente preocupada com o quadrinho nacional. O Gualberto e o JAL carregam aquele HQ Mix sozinhos, uns puta valentes, assim, então a Monga tem esse espírito, eu acho. Teve uns atritos, assim, de início, mas de compreender mal, assim. O Grouxo Marx diz, na biografia dele, que nenhum artista comemora sinceramente o sucesso de outro artista. [risos] Mas é porque você tem uma idéia estética, uma visão, e que às vezes bate com a idéia de outras pessoas, né. E na época teve um tanto disso aí, que eu acho uma puta bobagem, graças ao Cavaleiro das Trevas, graças aos heróis que a Abril lançava é que a Animal durou tanto tempo. E é importante que tenha gente, que tenha um mercado. Mas a Animal tinha uma pose meio arrogante.
kazi: Mesmo no formato que ela foi lançada, cuchê, quadricromia
rogério: É, maior metidez.
kazi: E era cara para os padrões da época.
rogério: Porque todo mundo estava acostumado com os formatinhos da Abril. Ela regulava com as graphic novels da Abril.
kazi: Era mais cara.
rogério: Mas era melhor.
kazi: Com certeza.
|
   |
|