Entrevista
Linha editorial
Desilusão
Após a mudança
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Desilusão
rogério: Aí começou a Animal. A primeira capa era pra ser o Ranxerox, mesmo. Todas as capas que eu fui responsável direto, foi roubo, eu não criei nenhuma capa. Tipo, essa capa do primeiro número era a capa do álbum francês, só que estourada. Todo mundo falava que não ia dar, que ia estourar, e eu não, estoura mesmo. E ficou legal. Outra capa que eu roubei foi aquela do Bernet, aquela do anãozinho com faca na mão.
E a Animal tava conseguindo uma coisa que pra quem lê não faz muita diferença, mas pra quem tá no meio sabe, que é conseguir anunciantes.
kazi: E anúncio em quadrinho é a coisa mais difícil.
rogério: É, mais rara. E é por isso que tinha importāncia o texto. E aí, em texto, tinha a Rosane, nós conseguimos a Rosane.
kazi: Rosane Pavam.
rogério: Eu era o editor, a Rosane era a editora de texto
Ah, nesse meio tempo o Celso tinha caído fora.
kazi: O Celso caiu fora bem cedo.
rogério: O Celso caiu fora antes da revista sair, porque ele achou que a gente tava marcando muito de entregar a revista de mão-beijada pro Vincent. Assim, título ser do Vincent e a gente receber só 20% do lucro. Ele achou que era um absurdo, a gente teve um puta pau. Eu tava muito preocupado com a revista sair, sabe, aquela coisa boba de você querer que a revista saia de qualquer maneira, mesmo que você tenha que pagar pra isso? Bobagem de amador.
kazi: Espírito de fanzineiro.
rogério: Espírito de fanzineiro. Esse negócio. Hoje em dia eu admito e tenho claro que o Celso tava certo. É lógico que eu tenho minhas divergências, briguei, teve as excentricidades de parte a parte na época, mas o Celso tava certo. Acho que a gente deveria ter sido um pouco mais sério, poderia até ter sido o que foi, mas deveria ter tido esse tipo de discussão. Nesse negócio, deu uma separada, e teve rolos pessoais no meio desse negócio todo.
 | Feio, sujo e malvado |
Aí a Rosane era pra ser editora de texto e foi legal e tudo, mas a Rosane, logo de início, no segundo número, ela ficou meio assim porque a estrutura era muito amador. E o Vincent insistia em administrar o negócio como uma coisa assim, no futuro
Ninguém trabalhava registrado, não tinha horário, e era um horário até meio barra pesada pra fazer a revista, porque não tinha estrutura nenhuma, não é trabalhar numa Azul ou na Abril. Era uma editora que não existia, a gente montou, a editora passou a existir a partir do momento em que foi uma equipe pra lá. E a Rosane ficou muito puta e o Vincent não queria pagar nada, aí propôs uma ajuda de custo, e a Rosane resolveu sair. E foi um outro erro meu porque eu disse "Não, não sai", não sei quê, porque eu queria fazer a revista, eu queria que a revista saísse. Mas foi um baque, sabe, quando a Rosane saiu foi a perda da virgindade, foi a perda da inocência, você começa a ficar mais esperto, mais chateado. Eu percebi que tinha problemas. E foi um erro meu não ter sustentado aquela discussão naquele momento. Acho que a revista perdeu muito. A partir daquilo ela acabou virando uma coisa que não era o objetivo dela, que era um catálogo de coisas legais. Não era pra ser só didático, era pra ser uma revista de verdade. A idéia era Zulu, L'Echo des Savannes, que hoje quadrinho é uma pequena parte, ela tem muito mais coisa, tem anunciantes, é uma revista que existe de verdade, corre na faixa da Actuel. Era uma coisa que a Animal tinha potencial para chegar.
Quando chegou no número seis eu já tava desanimado da revista. Não rodava grana, não tinha dinheiro, tava triste. Trabalhava sábado e domingo. Teve dias do Fábio estar tão sem dinheiro que ele dormia na redação porque não tinha dinheiro pra pegar ônibus, era desse jeito, foi uma puta coisa ridícula. E foi aí que eu comecei a achar que o Vincent tem um monte de qualidades, mas ele tratava a coisa como um hobby. Como asa delta vou fazer uma revista de quadrinhos. E a gente era os carregadores de taco dele. E foi ficando uma relação meio desgastante pra todo mundo, e eu fui o primeiro a "semi-cair fora". Do mesmo jeito que eu sou meio obsessivo quando eu quero fazer alguma coisa, quando eu desanimo não tem quem empurre. Você não faz um fanzine sem ānimo. Até chegar no final que não é o caso de falar porque é triste e feio o final dessa história pra todo mundo.
Eu acho, pulando tudo isso daí, que a revista teve coisas que pioraram depois que eu saí. Essa falta de ambição da revista me entedia. Uma revista sem ambição não tem interesse. Quando eu trabalhei na Bizz eu achava, puxa vida, só música, não tem graça, mas não é o meu lance.
Então, esse negócio de falta de perspectiva de conquistar o poder, de marchar sobre a Avenida Paulista e de tacar fogo nos prédios eu acho meio tedioso, sabe, só o didático, não sei. Hoje eu tô mais leve então eu tenho umas tendências meio professorais, mas eu acho que ganhou numas coisas, que ficaram muito mais redondas depois que eu saí. O "Mau", por exemplo, eu tinha excesso de ambição em relação ao "Mau". Eu queria que fosse a coisa escandalosa, de tudo quanto é podreira
kazi: O Manual do Suicida, que não saiu
rogério: É, que o Vincent barrou, eu não queria um manual, eu queria uma seção de suicida, todo número tinha uma receita pro cara se suicidar. E tem mil coisas, mil toques pra se dar, aquele negócio de assassinos. E política, eu queria muito política na revista, queria que fosse uma coisa de entrevistar o brucutu da Convergência Socialista que quer destruir tudo com coquetéis molotov, sabe, alguma coisa assim, que desse uma chacoalhada nos caras que lêem quadrinhos: "Olha, se vira, se mexe, vai pra rua, faz alguma coisa." Vai descobrir o mundo.
kazi: Você não tem que fazer revista, tem que fazer fanzine. Aí não deu pra fazer e você largou mão da revista.
rogério: Hoje em dia vendo, eu acho que eu fui largando a mão. Mas acho que foi meio isso daí que foi uma das causas, eu era uma força desestabilizadora ali dentro.
kazi: Você tinha uma posição de poder muito alta na revista e era a pessoa que mexia, que desestabilizava. Por um lado isso é bom porque você mantém a revista viva
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