Entrevista
Linha editorial
Desilusão
Após a mudança
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Após a mudança
rogério: Depois que eu saí eu acho que a revista deu uma melhorada, ficou mais assim tipo Gallery, Around, acho que virou uma revista social de Espaço Retrô e coisas assim, acho que virou uma coisa do "meio underround paulistano" e as pessoas incríveis que se encontram no meio
Acho que tá no direito de ter. Eu não faria porque eu não tenho o menor saco de agüentar ir nesse tipo de coisa. [risos]
Mas quando eu saí, uma das razões de grandes brigas foi esse negócio da política com publicidade. A revista perdeu completamente a publicidade a partir de quando eu saí, e por que isso dai? Uma: porque o Vincent deciciu que a revista iria viver de renda e pronto, e tirou os caras que trabalhavam lá, que eram dois picaretas no Rio e o Arnaldo aqui que era uma pessoa super-importante pra revista. Fomos eu e o Arnaldo que agitamos todas aquelas festas da Animal que foram legais pra cacete. E a Animal perdeu completamente o contato com o mundo e foi ficando uma revista nostálgica, mas muito melhor acabada e redonda do que no tempo em que eu tava, isso eu tenho que admitir.
Eu tava já perturbado no final, da revista estar ficando meio nostálgica, eu já tinha conversado com o Fábio que a onda, já tava na Inglaterra, e o quadrinho americano, tava faltando quadrinho americano.
kazi: O que o Zimbres e o Foot me disseram foi que vocês já estavam entrando em contato com a Fantagraphics
rogério: A gente já tinha tido contado com a Fantagraphics, legal, os caras adoraram o Jaca. E a gente já tinha publicado Love & Rockets. Quem apareceu com Love & Rockets na minha frente pela primeira vez foi o Newton, antes da Animal aparecer, ele tinha os xerox de umas páginas, mas no final talvez eu tenha sido mais insistente nesse tipo de material do que ele. Então, tava tendo um contato com o quadrinho cabeça americano, mas não rolou, mas o que eu tava querendo era quadrinho de terror, sabe, Tundra, as coisas alternativas do Alan Moore, a revista teria tido a chance de capitalizar tudo isso aí.
kazi: Era a única.
rogério: E a gente perdeu o bonde com aqueles quadrinhos italianos que nem os italianos tavam consumindo mais. Não tinha mais importāncia. Quando a Animal surgiu os quadrinhos europeus já tavam em decadência.
kazi: Mas vocês pegaram a fase áurea desses quadrinho e trouxeram pra cá, atrasado
A grande vantagem é que, por qui, tudo era novidade.
rogério: No Brasil tudo era novidade, era por isso que lá fora ninguém dava importāncia pra Animal. Era "a revista que republicava", saiu notinhas na Pilote, mas não tinha tanta importāncia. Mas no Brasil tinha uma puta importāncia.
A gente teve importāncia depois. O pessoal da Fantagraphics gostavam dos quadrinhos nacionais. O Jaca, os caras ficaram entusiasmados com ele, mandaram carta. Então eu acho que a revista perdeu um pouco da arrogāncia, da pretensão.
Cê sabe como entrou Mattioli na revista? O Mattioli tava no boneco porque era P&B, acho que tirou de uma Frigidaire que eu tinha. Só que não era pra ser ele no primeiro número, ele entrou de tapa-buraco. E foi o maior sucesso.
A Priscila entrou na revista depois do número seis e eu achei legal porque eu era muito "rock", o Fábio muito "pacato" e eu sentia necessidade de mais alguém com atitude "rock" na revista. Mas foi tão esquisita a minha saída da Animal, cheia de coisinhas, que eu acho que foi bom pra revista, mais uma pessoa que puxava pra um lado, assim.
kazi: Para os leitores dava a impressão que ela ficava confinada ao "Mau".
rogério: Eu acho que a Animal chegou num ponto que ela foi negativa pra todo mundo que trabalhou lá. Pra mim deu uma parada, profissionalmente, tanto que depois eu me dei muito bem. Eu poderia ter me dado bem antes. Mas talvez eu nem tenha sido o caso mais grave. A Priscila tava em ascenção na época e virou a "senhora Animal", ficou uma coisa limitada.
kazi: Virou um estigma.
rogério: Ficou meio marcado. O Fábio é uma tristeza, eu convidei ele porque o Rororo, que ele publicou na Brigitte era uma puta história maravilhosa e o Fábio nunca conseguiu desenhar na Animal, e ele ficou um tempo pra se recuperar depois.
kazi: Falta de tempo?
rogério: Não é só falta de tempo, cê edita quadrinhos, cara
Eu publiquei quadrinho no primeiro número da Animal e depois nunca mais
Mas o Fábio passou muito tempo até voltar a desenhar.
Publicações que mexem com o udigrudi
kazi: E o negócio da campanha contra a Animal, você chegou a pegar?
rogério: Isso foi logo de início. Era muito engraçado porque vinha cartas de diversos lugares do Brasil com a mesma letra. Porque teve uma rede de fanzines formada por um
Um "bobinho" que já deve ter se arrependido [risos]. Teve um encontro de fanzines, não sei quê [risos] e eles tiraram conclusões [risos]. Mas era o mesmo texto. Mas fazer o quê?
kazi: Legal. Se todo mundo gosta não tem graça.
rogério: Eu acho legal, é. Se todo mundo gostar não é normal. Eu dou risada mas não é pra ofender. Acho que tá no direito.
kazi: Eu acho muito engraçado porque tem uma campanha anti-Panacea no meio dos fanzines, só que a gente não recebe carta. Não é como na Animal
rogério: Mas sabe o que é, é que o Panacea é um corpo esquisito no meio dos fanzines, foi por isso que eu chamei a atenção, eu cheguei a escrever. Porque o que eu acho interessante é que é um fanzine estranho ao meio dos fanzines. Não existia um fanzine com pretensão, sabe, por que que pretensão tem que ser negativa?
kazi: Pode haver ambições positivas ou negativas.
rogério: Pensar pequeno é uma coisa triste. Eu imagino que deva haver muitos problemas nesse sentido. É incrível como qualquer movimento que você faça já causa estremecimento, e não tem o menor sentido, e as pessoas ficam magoadas com você
Quer ver uma coisa? O Mauricio de Sousa. As pessoas ficaram acostumadas a falar mal dele e ele nunca fez mal pra ninguém, que eu saiba o cara seportou ultra bem com todo mundo. Eu propuz o nome dele pra Mestre do Quadrinho Nacional e todo mundo foi contra só porque o cara não desenha, e daí? O Walt Disney também não desenhava e foi uma cara chave pros quadrinhos, pro cinema, não é um Mestre? No amplo sentido da palavra, é um criador. É a mesma coisa que falar que um cara que trabalha com sampler não é um músico. Ah, o maestro não toca nenhum instrumento, então não tem importāncia pra música. [risos]
Mas cê vê que esse negócio da inveja é uma coisa muito provinciana, e no Brasil isso corre solta. Mas é uma coisa de bobagenzinha, mesmo. Eu fico surpresa como falta qualidade nos quadrinhos cariocas, assim, mas não há o menor bairrismo. Mas o Patati faz umas coisas bem legais. Mas se você fala isso, todo mundo já "Oh!", e já saem as bandeiras. Não é isso. Eu acho que São Paulo tem o pior rock do Brasil. Mas é um ambiente muito apertado, nos Estados Unidos todo mundo quer conquistar as coisas.
kazi: Aqui os caras querem derrubar primeiro.
rogério: Não tem lugar pra duas revistas de quadrinhos! Sabe, a Panacea vai bater com a General, sabe?
kazi: Eu tinha um pouco de medo de uma revista que ia falar de quadrinhos, música cinema, só falta chamar Panacea
rogério: Você não achou que ia ser essa merda
[risos]
kazi: Eu falei, fodeu. Mas quando eu vi a General, eu falei
rogério: Não, a gente é pop.
kazi: É, exatamente, o meu público é completamente diferente do seu.
rogério: Eu acho que pode ter uma troca. De ler as duas.
Conclusões
kazi: O que você mais gostava dentro da Animal, que você publicou?
rogério: Eu adoro o Bernet até hoje, mas é uma das exceções dentro do meu projeto da Animal. O Ranxerox, natural, mas ele foi tão manjado que eu já não agüentava mais ver. [risos] Encheu o saco. O Pavanelli, o Toral, o Mutarelli, o Bicalho, o Newton é muito legal e é a maior vítima da Animal. Ele tinha uma revista própria que era muito legal, a Bundha.
kazi: E o que você tá vendo de legal, hoje?
rogério: Caras como eu ficaram um tanto excluídos do mercado de quadrinhos atual. Voltaram todos os super-heróis, cara.
kazi: Super-herói é uma coisa que voltou e que vai acabar logo
rogério: Deus queira. Eu adoro a Liga da Justiça, mas depois foi ficando chato. Quando me chamaram pra voltar a escrever na Folha eu falei "Legal, mas eu não queria escrever sobre a morte do Super-Homem." [risos]. Cê viu que o único texto que eu escrevi sobre a morte do Super-Homem foi pra falar que o Super-Homem já morreu um monte de vezes, foi uma palhaçada, só mesmo essa gente pra ficar acreditando. Que o surpreendente mesmo não é acreditar que o Super-Homem existe, o surpreendente é acreditar que ele morreu. [risos] É uma bobagem sem tamanho. Marvel é insuportável.
kazi: É isso. Tem alguma coisa pra falar?
rogério: Eu acho que foi legal, foi bem legal.
kazi: Foi bom pra você?
rogério: [risos] É, eu acho que o pessoal levou a Animal muito a sério, tanto quanto a gente levou.
kazi: Foi um marco. Mas quem comprava super-herói continuou comprando
rogério: É, eu fico me sentindo um velhinho
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