Entrevista
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 | A capa da terceira edição de ALAS, o fanzine de Sasha |
kazi: Qual seu nome completo e quantos anos você tem?
sasha: Eu farei 32 anos em agosto e meu nome completo é Sasha Rakezich, mas eu uso o pseudônimo Aleksandar Zograf em meus quadrinhos. Algum tempo atrás eu também usei um terceiro nome que me foi dado Dreamwatcher. Esse nome me foi dado por um chefe índio chamado Piercing Eyes por causa do meu interesse na tradição indígena norte-americana. Eu nunca estive nos Estados Unidos, mas sempre achei a sua cultura nativa diferente e única e coleciono livros e artigos sobre o assunto. Isso também se conecta com meu interesse em sonhos e em arte derivada de estados oníricos.
Chefe Piercing Eyes é um dos fundadores da Associação Panamericana Indígena e eu o contactei (pelo correio), o que acarretou numa interessante troca de idéias. Em algumas tradições xamanísticas, e na cultura dos índios norte-americanos, os sonhos são muito importantes. Estou tentando explorar diferentes estados de sonho e crianso desenhos e HQs baseados em visões oníricas.
Por outro lado, os índios norte-americanos são um povo que perdeu sua civilização original e se sentem bastante confusos com a cultura moderna, o que é similar aos sérvios e outras nações da Iugoslávia, de certa maneira. Hoje, nosso mundo está novamente separado em duas partes: de um lado os países ocidentais, ricos, bem organizados e poderosos. Do outro as culturas nativas, os países latino-americanos, a Europa Oriental a Ásia etc., onde o povo está confuso, procurando por sua identidade e cheio de problemas. É claro que todos sabem que algo está errado com os países ricos e que há algo bom a ser descoberto nas partes mais pobres e confusas do mundo. Por isso nós temos muito a aprender uns dos outros, misturando nossas energias e idéias.
kazi: Onde você está publicando atualmente?
sasha: Nos últimos anos, meus quadrinhos têm sido publicados, em sua maioria, o exterior em revistas uderground americanas como Weirdo, Buzzard, Tantalizing Stories, The Comics Journal etc. Minha primeira revista solo saiu em 1994, pela Fantagraphics Books. O título é Life under sanctions. Recentemente, tenho feito histórias de uma página sobre a situação na Iugoslávia para um tablóide de Seattle chamado Reflex.
kazi: Em quais projetos você está envolvido?
sasha: No momento estou coletando material para uma antologia internacional de quadrinhos relacionados a sonhos. Ela conterá trabalhos de autores famosos (Robert Crumb, Jay Linch, Rick Veitch etc.) e outros que ainda estão começando. Tentarei publicar trabalhos de autores de países diferentes.
No meu país, estou trabalhando num poster (AUT) que consiste de tiras de seis autores de seis países diferentes (EUA, Inglaterra, França, Itália, Eslovênia e Sérvia). As tiras falam sobre a situação na Iugoslávia e trazem mensagens pacifistas. O poster vai ser publicado pelo Movimento Pacifista de Panchevo e será pregado nos muros de várias cidades na Sérvia. O plano é falar diretamente às pessoas.
kazi: Por que quadrinhos? O que você acha do meio?
sasha: Além de quadrinhos, eu também trabalho como jornalista free-lance aqui na Sérvia (para revistas e periódicos independentes). Mas os quadrinhos são o principal meio pelo qual me expresso. Acho que os quadrinhos alternativos são o meio mais avançado na contracultura de hoje, e o mais ignorado também.
kazi: Alguma mensagem para os brasileiros?
sasha: Eu diria que vocês podem aprender algo com o que aconteceu na Iugoslávia: talvez seja um mau exemplo para o mundo. Essa guerra civil insana mostra o que acontece quando as pessoas começam a lutar entre si. Após três anos de guerra, sanções, lutas e loucura de todo o tipo, você se pergunta: "Qual é a razão disso tudo?" Parece que tudo isso tem apenas um objetivo lutar pela dominação administrativa em territórios diferentes. No final das contas, você vai ter um idiota dessa ou daquela nacionalidade que vai estabelecer um governo, com todo o aparato e cobrar impostos. Esse tipo de loucura não é característica exclusiva da Iugoslávia. Pode acontecer em qualquer lugar do mundo e é importante que não aconteça de novo em outro lugar!
Assim como a Iugoslávia, o Brasil é um lugar onde culturas diferentes estão misturadas. Temos também outra coisa em comum: uma situação econômica catastrófica [essa entrevista foi enviada junto a uma carta com "novidades", antes do plano FHC]. Eu gostaria de enviar minhas melhores estimas às pessoas pelo mundo afora que tentam se conscientizar dos verdadeiros problemas do nosso tempo e que também tentam explorar a própria criatividade. Aposto que em algum lugar do Brasil há um quadrinhista da minha idade, que talvez esteja numa cidade não muito diferente da cidade onde vivo, e que também está dando duro no seu trabalho
Essa idéa me enternece. | Idiotices governamentais: não são prerrogativas brasileiras. |
kazi: Fale um pouco sobre a situação na Sérvia.
sasha: A Sérvia está agora numa condição que não é de paz nem de guerra. A situação é bastante complexa. Depois da decomposição da Iugoslávia, todas as repúblicas tiveram problemas de um tipo ou de outro. O regime sérvio financiou a guerra e isso consumiu drasticamente os recursos do país. Após a proclamação das sanções econômicas na Sérvia, a situação ficou ainda pior. Uma das maiores taxas infllacionárias da história abalou as pessoas comuns e abriu caminho pro mercado negro e pra máfia. As pessoas se viam com 10 bilhões de dinares em notas no seu bolso, e isso não valia nada... No final de 93, o salário comum era de dois dólares! Depois do novo programa econômico do governo sérvio, no começo de 1994, a inflação foi dominada e a situação econômica melhorou um pouquinho, mas todos os problemas permaneceram sem solução.
A Sérvia agora é um país com muitos milhares de refugiados da zona de guerra, uma terra onde a maioria da população está perocupada apenas em sobreviver, tornando-se apáticas e sem forças. A maioria delas apenas assiste à TV e acredita em todas as mentiras que essa TV (controlada pelo governo) lhes diz. Infelizmente, as sanções só deram mais poder ao regime e estabelecer alianças com a máfia e com as pessoas que lucram com a guerra... Após algum tempo, o regime obteve sucesso em "estrangular" a imprensa independente, sem o uso da força ou da violência. Entretanto, ainda há alguns jornais, revistas e estações de TV que se manifestam contra a política do Estado, contra a guerra e contra o "reinado" do presidente Miloshevich. Mas essa mídia independente tem distribuição limitada e freqüentemente obstruída pelo regime.
Durante esse inverno, a Sérvia mergulhou numa nova crise: a da falta de energia elétrica. Na minha cidade falta energia de 9 a 12 horas por dia! Durante esse tempo, o aquecimento não funciona nas casas, e a temperatura às vezes é abaixo de zero... Resumindo, a situação é ruim, mas eu acho algum sentido fazendo meus quadrinhos, e isso é tudo...
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