Contexto: Feita em 94, na casa de Toral, em Perdizes, bairro de classe média de São Paulo, esta foi a única entrevista da Panacea censurada pelo entrevistado, que fez questão de ler o texto antes de publicarmos. Respeitamos a vontade do artista e publicamos apenas o que foi autorizado na época.
Entrevista
Quadrinho, arte e literatura
Falando (também) para artistas

Cena de "Pesadelos Paraguaios"

kazi: Você estudou onde?
toral: Na USP. Fiz Ciências Sociais.
kazi: E fez pós-graduação no Rio?
toral: Antropologia.
kazi: E quadrinhos, vem de quando?
toral: Quadrinhos é uma coisa meio recente. Eu sempre desenhei, eu desenhei a vida toda. Eu ganhava dinheiro fazendo ilustração, desenhava mapas e sempre gostei. Sempre desenhei sem pensar muito no retorno, como é que eu ia ganhar dinheiro. Fiz curso de gravura. Fazia desenho regularmente mas eu nunca finalizava os trabalhos, os quadros as, histórias…
Aí, quando eu voltei de Goiás, em 86, eu queria fazer outra coisa além de antropologia — chega de viver só como antropólogo. Aí foi que eu comecei a fazer ilustração, capa, profissionalmente (fiz capa pra caralho). Capa de livro, literatura, tudo. Onde tinha dinheiro, eu tava lá. Eu passei alguns anos fazendo esse tipo de coisa, mas também não me dava satisfação, era um troço que eu fazia… Sabe, não é uma coisa tua, não é um texto seu, e o seu trabalho está submetido ao critério de outra pessoa, de um editor com o qual às vezes você pode não concordar e aí não tem chance de diálogo. Fora a situação de finanças que é muito ruim: tem mês que pinta um monte de coisas, tem mês que não pinta nada.
kazi: Isso você fez até quando?
toral: Tô fazendo, ainda, de vez em quando pinta trabalho. Depois comecei a fazer umas coisas de produção gráfica. Mas eu sempre tive esse negócio de "não trabalhar na tua roça e não dividir o produto da colheita", que é a sensação que eu tenho quando eu ilustro um livro de outra pessoa. O negócio não te pertence, nem em nível de produção nem em nível de produto final. Mas faço, e faço com boa vontade, mas não gostaria de viver só disso. Acho que ninguém gosta.
Isso foi em 88, 89. Faz muito pouco tempo que eu resolvi mexer com quadrinhos, acho que faz uns seis anos. Em 85, 86, eu acabei a primeira história em quadrinhos. Te contei essa história?
kazi: Não…
toral: Foi a primeira que eu acabei, acabada.
kazi: De colocar o "Fim".
toral: É. Tudo pronto, com overlay, linda, a história, bem acabada e tal. É uma história que eu vejo hoje e eu jamais poderia fazer de novo porque [ela] era complicadíssima, elaboradíssima. A história era uma bosta total, mas era um trabalho de chinês, porque eu tinha horas e horas pra fazer um carro… Então, como história era muito ruim, mas o desenho tinha muita qualidade. Talvez tivesse mais qualidade do que eu faço hoje. Era uma coisa inviável, mas era um troço para ser visto. Aí botei debaixo do braço e fui lá na Circo. Aí cheguei lá e cagaram na minha cabeça.

Novas perspectivas

kazi: Me espantou um pouco o time que o Toninho [Mendes] chamou para a Lúcifer. Dava a impressão que o Toninho iria sempre trabalhar com Glauco/Angeli/Laerte e quando eu vi tava todo mundo: Toral, [Osvaldo] Pavanelli, Lourenço [Mutarelli]…
toral: Tava todo mundo aí porque todo mundo tinha história guardada. Mas isso não quer dizer que a revista tenha uma identidade. Eu nem vi o Lourenço antes da revista estar pronta. No meu entender fazer uma revista é editar a revista, é fazer uma proposta e editar a revista segundo essa proposta.
kazi: A maioria dos quadrinhistas brasileiros que têm publicado com uma certa freqüencia é de São Paulo. Não haveria a possibilidade de fazer uma L'Humanoides Associés no Brasil? Juntar esse povo: "Vamos fazer uma revista." Uma vez a cada seis meses…
toral: Eu acho difícil por causa do retorno. Ninguém tem grana pra topar um negócio desse.
kazi: Não é tão caro.
toral: Eu sei, mas as pessoas que têm o canal, elas só sabem fazer de uma forma. Eu acho que com o tempo talvez seja necessário realmente fazer uma revista. Mas por enquanto só esse negócio de autor já acaba comigo…
kazi: É uma crítica do Marcatti. Ele acha que autor tem que ser autor e editor tem que ser editor. Artista não tem que ficar se preocupando se o fotolito já saiu pra gráfica ou não…
toral: Eu acho isso. O Problema é que pra isso você tem que ter um editor bem pago. Pra você ter um editor bem pago, você tem que ter uma publicação rentável. E aí não dá pra fazer uma revista a cada seis meses, tem que ter uma revista bimestral, rotineira, com uma mínima infra-estrutura montada, espacialmente junta, senão é uma piração. E entra nessa quem tem possibilidade de retorno.
kazi: Governo, nem pensar.
toral: Acho que não. Só a Dumdum, mesmo.

Alguma experiência

kazi: Depois que acabou a Animal veio a Dealer…
toral: É, aí teve o espasmo da Dealer.
kazi: Que pagava bem.
toral: Pagava super bem, pagava duas vezes o que a gente recebia. E fazia uma coisa razoável que era pagar mais o desenhista que já tinha portfólio e comprar histórias segundo o valor de mercado.
kazi: Agora, o problema de comprar histórias pelo valor de mercado hoje em dia é que o único lugar que está publicando é a Lúcifer, então o valor de mercado é o que ela paga.
toral: Se o desenhista se presta a desenhar.
kazi: Mas aí é que está, se você vendeu uma história a "X", se eu quisesse comprar e te oferecesse "X" você provavelmente iria topar.
toral: Por isso que existe na Constituição uma lei contra a oscilação de oligopólio. [risos] Agora, ninguém está nessa pra ganhar dinheiro, então se você paga "X", você recebe uma história não compatível com a publicação que você tem na cabeça, porque o cara não fez essa história pra você, ele tinha essa história e cedeu pra publicação. Então essa política de pagar mal tem a volta: você acaba editando mal, porque você não tem material, você junta material.
kazi: Parece que as revistas brasileiras sempre foram assim.
toral: Sempre foram assim. Teve períodos, revistas que tiveram uma existência longa formaram desenhistas significativos. Desde o Cabrião e a Semana Ilustrada, que eram do Angelo Agostini formaram um grande desenhista. Você vê o Angelo Agostini, quando começou no Cabrião, em São Paulo, em 1867 é um, o que terminou na Semana Fluminense é outro.
Você vê, a Circo formou o Angeli, o Laerte e o Luís Gê.
kazi: Que já estavam no Balão.
toral: É, o Balão foi o começo. Depois eles ficaram juntos porque tiveram um lugar onde podiam desenhar. A Animal também permitiu, durante algum tempo, que alguns desenhistas tivessem um canal de comunicação. E depois, uma coisa, que é você fazer sem ter possibilidade de retorno.
kazi: Mas você acha que…
toral: Eu não aceito alguém falar: "Eu não faço história porque eu não publico. Porque não bate um editor na minha porta pedindo." Você tem que ter a história. Quem trabalha muito, deus ajuda. Se você faz uma história num ano, teu desenvoilvimento é um, se você faz dez histórias, teu desenvolvimento é outro. Mesmo você não publicando. E quando chegar alguém pra publicar, você tem aquele puta material.
kazi: Além do quê, há uma estagnação se você não desenha…
toral: É o problema do desenhista bissexto. Há inúmeros colegas meus que publicam uma história por ano.
kazi: É diferente do Mutarelli, que publica uma história por ano porque passa um ano desenhando uma história.
toral: É, e o Lourenço tem um processo mental tão complicado e tão denso que ele produz histórias como ele vive: como ele come, vai ao banheiro, ele desenha, ele vive através disso. A história do Lourenço é outra, não é a mesma história pra gente.
Acho que agora a loucura dele já está ficando um pouco burguesa. [risos] Acho que ele corre esse risco de não conseguir fazer histórias que superem a condição dele. Aí que eu falo da loucura burguesa. Ele paga pra ser o louco.
kazi: Você acha que as histórias dele vão para que lado?
toral: Não sei, ele tem muita imaginação, ele tem muita bibliografia visual na cabeça. Eu acho que seja pra onde for ele vai bem. Mas eu tenho muita curiosidade de ver.