Entrevista
Quadrinho, arte e literatura
Falando (também) para artistas

O começo

kazi: O que é que tem de bom por aí?
toral: Brasileiro ou estrangeiro?
kazi: Brasileiro.
toral: Eu gosto dos clássicos, Flávio Colin, Vasques. Essa revista nova, a Lúcifer, eu acho que deveria abrir com um desenhista de peso. Nós somos muito bons, nós somos todos ótimos, mas somos todos nível médio. Tem que chamar um cara que já tenha um trabalho sólido, tipo Flávio Colin, que são as pessoas que têm técnica apurada.

Outra cena de "ânsia de matar"

kazi: Você acha que falta um pouco dessa crítica no artista brasileiro?
toral: Eu acho que falta o momento de a gente se encontrar. Não tem espaço. Eu queria muito falar com o Laerte, com o Glauco…
kazi: E qual seria esse espaço? Seria fazer conveção e fechar uma sala: só artista lá dentro?
toral: Eu acho que um bom jeito de repercutir opinião é com revistas como a tua. Por exemplo, nas entrevistas, você devia perguntar sistematicamente a opinião: "Laerte, o que é que você acha do trabalho recente do Angeli, do trabalho recente do Toral, do trabalho recente do Osvaldo…" Aí você cria o diálogo.
kazi: Ainda que cause algumas…
toral: É, vai causar, sempre causa umas fagulhas nas vaidades, mas eu acho normal. E a gente vive muito numa situação de prima dona, todos somos ótimos. E não somos. Tem defeito. Eu tenho muito defeito, eu tenho problema de adaptação do desenho. Meu desenho é muito em si, ele não serve a história, eu acho ele muito egoísta. Ele é uma pequena obra de arte e a história perde em ação. Eu acho que eu faço muito texto, acho que meu texto não é muito bom, acho que podia ser melhor, acho que eu ponho muita vírgula, quero explicar muita coisa, minhas histórias são muito cabeças, meu universo é muito pesado… Tem um monte de coisas pra meter o pau no André Toral. É que eu queria ouvir de outras pessoas.
Acho curioso quando tem encontros, entrevistas, assim, que eu vejo que o pessoal lê, tem gente que segue o teu trabalho, e você nunca vai conhecer o carinha. Uma vez num encontro lá na POLI [Escola Politécnia, é a faculdade de engenharia da USP], levantou um japonês lá que conhecia o meu trabalho mais que eu. Falou umas coisas que eu fiquei com o queixo no chão, taí um cara que lê, acompanha e reflete sobre o meu trabalho. Que pena que eu nunca mais vou ver ele.
kazi: Mas a Panacea é pra entrar aí, pra fazer essa ponte.
toral: Acho que ela faz. Mas acho que ela podia mexer mais a água ainda.
kazi: Turvar um pouco mais a água.
toral: É, confundir mais.
kazi: Então fala: o que você acha do trabalho do Pavanelli?
toral: Pavanelli? A gente tem uma ligação muito densa, a gente é amigo, a gente brigou, a gente voltou a ser amigo então…
kazi: Tá delicado…
toral: Tá delicado ainda. A gente não é viado mas a gente se gosta muito. Eu gosto muito do trabalho dele, acho que o trabalho dele tá crescendo pra caralho, numa velocidade estonteante. Ele é um cara bom, ele tem muita facilidade no domínio do claro-escuro e eu acho que falta pra ele uma definição quanto ao gênero que ele faz. Acho que ele tem que se liberar da canga do humor. Essa liberação da canga do humor não é só uma liberação temática, mas uma liberação de tratamento de figura humana. Eu acho que ele devia dar um salto aí.
kazi: Largar um pouco o cartum.
toral: É, a solução fácil, a estilização… Cair mais pra barra humana, da veia que cai, do olho que salta. E isso só realmente olhando mesmo.
kazi: Uma mutarellização no trabalho dele.
toral: É, um pouco de representar a figura humana así por arribita, com se diz em espanhol. Eu acho ele muito bom e acho que ele está ficando muito bom em roteiro também, uma coisa que ele sempre teve dificuldade, não fazia.
Eu acho que ele tem problema de uso excessivo de flash back. As histórias dele são o "Império do Flash Back".
kazi: [José] Duval?
toral: Eu acompanhei pouco o trabalho dele. Acho que essa última história dele [publicada na revista Lúcifer nš 1] tem estrutura de mangá. E eu não gostei do universo da fantasia dele: três rapazes barra pesada, de moto, que vão descolar uma grana assaltando um banco e fogem e tudo bem. Não gostei. Parece anúncio de LM. Mas ele tem facilidade para desenho.
kazi: Maringoni?
toral: Eu gosto do Maringoni. Acho que era um cara que poderia se desenvolver se tivesse espaço. Ele é um daqueles desenhistas bissextos que eu te falei.
kazi: Você viu aquela história dele do Minhocão?
toral: Vi. Do caralho. Eu acho ele meio camaleônico, eu não consigo lebrar um estilo dele. Talvez por esse negócio da demanda, não tem que fazer muito, então pra cada coisa ele dá um tratamento. Ele tá experimentando.
O Adão eu acho uma das coisas mais hilárias que apareceram nos quadrinhos brasileiros nos últimos anos. E ele tem muita semelhança com o Angeli e com o Glauco. Espero que não aconteça com ele o que aconteceu com o Glauco, que achou a fórmula e parou. O Geraldão tá igual ao que era o ano passado que é igual ao que era há dois anos…
kazi: Que não é o caso do Gonsales.
toral: Que não é o caso do Gonsales. O humor do Gonsales muda, o desenho dele muda. Gonsales eu gosto muito. O primeiro lugar absoluto em tiras no Brasil hoje é o Laerte. É engraçado pra caralho. E depois vem o Gonsales. São os dois, o melhor que tem por aí. E eles sofrem quando eles fazem histórias longas, com estrutura de tira. Com a gag no final, a história é toda em cima de um desenlace, corre através de gags, é difícil, não tem estrutura de história.
Outro que eu acho que sofre muito por não desenhar, é o Fábio Zimbres, que desenha bem e desenha pouco. Acho que ele deveria fazer crítica de costumes. A melhor história dele foi uma das primeiras que ele publicou, a do professor Rororô. E ele é cabeça mesmo, não adianta, tem que fazer história pra intelectual, história pra elite. Ele tem que deixar é essa frescura de fazer história pra todo mundo gostar.

Assunto delicado

kazi: E o mercado, Toral?
toral: Não tem, né? Eu estava escutando uma conversa com o Toninho Mendes, e ele tava falando pra mim, e o que a gente faz é poesia. Não vende, e não vai mudar a curto prazo. A minha dúvida é essa, se tem espaço pra publicar uma revista de histórias em quadrinhos.
kazi: Que seja de humor, aventura…
toral: Falta. Eu acho que a mídia quadrinhos vai desaparecer. Não desaparecer, mas as tiragens vão ficar reduzidas a guetos.
kazi: Nos Estados Unidos eles encontraram uma saída, que foi transformar tudo em porcaria: só desenho, zero de história. Item de colecionador, que vende quinze pro mesmo cara.
toral: Eu acho que tem uma saída maior. A geração que tem quarenta anos, todas as gerações, elas foram criadas lendo quadrinhos, elas sentem necessidade de ler quadrinhos. Meus leitores ou é rapaziada ou é cara da minha idade mesmo. Eles ficaram órfãos, todo leitor de quadrinhos fica órfão numa determinada etapa.
kazi: É, depois dos seus doze, treze anos você não agüenta mais ler super-heróis.
toral: Não agüenta, é impossível ler aquilo ali. Então o que é que ele faz? No mercado europeu, que é maior, mais desenvolvido, mais bonito e forte que o nosso, ele tem Hugo Pratt, mesmo Giardino, Matotti, são quadrinhos pra adulto, pra nego que já é alfabetizado em quadrinhos, não é nego que vai começar a ler. É nego que já lê quadrinhos há quinze anos, então pega o negócio e entende. Já existe essa geração. Pra esses desenhistas existe esse público.
Esse público existe no Brasil, taí, pedindo, "Nós queremos ler. Cadê nosso pai, cadê nossa mãe?" Não dá mais pra ler Mauricio. Agora, público tem em toda parte, por que é que não vai ter no Brasil? Tem. É questão de ir lá buscar o cara.
kazi: É por isso que Sandman vende a tiragem inteira. Esse pessoal está lendo isso, poderia estar lendo Toral, Pavanelli…
toral: Um monte de outras coisas, mas não tem, né… Cara não quer aplicar. Quem vende é o eterno Laerte, Glauco e Angeli. O Luís Gê não conseguiu o espaço dele, depois que voltou da Inglaterra. Um puta desenhista.